O acaso que faz o sempre

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O acaso, que nunca é por acaso, lhes colocou no mesmo espaço de tempo

E como tudo que precisa acontecer, encontraram-se

Desse encontro nasceu simpatia que cresceu amizade e floresceu paixão

 

Ele precisava de confiança, ela carinho

Da união de seus acasos surgiu o inesperado

Paixão ao primeiro beijo pra um, amizade ao primeiro abraço para outra.

Juntos embarcaram em uma linda viagem

Na mala dele um amor dedicado, na mochila dela o amor desapegado

Em cada parada beijos… e os melhores abraços do mundo.

O tempo nos trilhos correu, a vida seguiu, ele insistiu, ela partiu

Na despedida um pedido: viva e seja feliz, porque feliz já estou.

 

No caminho dela desafios, no dele decisão.

Um reencontro saudoso, lembranças vividas e um presente para ele

Um amor descoberto na saudade que no agora poderia ser vivido. Vamos?

Mas aquele tempo que passa e que traz os acasos trouxera também certezas

Ele sabia que não queria mais, agora confiante, encontrara novo porto.

Amor tão calmo quanto gigante, o dela se refez nas lições.

 

Tudo foi amor, tudo foi de verdade… Amores separados pelo tempo

Tempo urgente de um, amor que leva tempo pra outra.

Desse breve período de suas vidas restaram as lembranças

E da linda viagem que fizeram juntos renasceram esperançosos

Ele confiante para novo amor, ela feliz para recomeçar acertos

 

O acaso que nunca é acaso podia sair de cena e deixar o tempo passar

Nada é em vão quando o tempo e o acaso se encontram

Tudo é vida e cada viagem, lição

Amizade que fica, é amor que dura pra sempre.

 

 

 

 

 

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Silêncio, que eu quero viver

O PROBLEMA DA SOLIDÃO É QUE ELA FALA DEMAIS.

Diário do Caminho 19/06

19/06/2018 – A chegada.

 

Havia uma energia diferente no ar. Desde ontem os sorrisos eram mais largos, olhares cúmplices trocados entre peregrinos que nem sabem os nomes uns dos outros mas que todos os dias trocam um “hola”… todos sabiam que estávamos chegando (juntos) à Santiago de Compostela. Um marco para muitos, o fim para a maioria, como eu. Parte de quem chega a Santiago segue até Finisterre. Lá seria o “fim da terra” e o verdadeiro final do Caminho.

No albergue estava hospedado um grupo grande de adolescentes e por conta disso, às 4:30h da manhã iniciou o barulho, quando eles foram acordados para começar a organização. Eu não consegui mais dormir e levantei da cama às 4:40. Eram 5:50 quando comecei a caminhar. Foi a primeira vez que saí no escuro e quando entrei em um bosque o breu era sinistro mas interessante. Havia um grupo de mulheres andando próximas à mim. Liguei a lanterna do celular e guiei o grupo todo por alguns minutos até que o céu mais claro tornou o caminho mais fácil e familiar.

Conforme fui me aproximando de Santiago, um filme foi passando pela minha cabeça. Lembrei da saída e me pareceu ter sido ontem. Eu alternava momentos de emoção e euforia. Me sentia um pouco estranha, como se fosse “obrigada” a logo voltar à vida normal…

Os arredores da Catedral de Santiago para quem chega pela primeira vez são um pouco confusos. Fui adentrando por ruas estreitas e cada vez mais lotadas de gente. Eu não sabia exatamente o que esperar e me parecia que nunca chegava à tal praça que eu vi tantas vezes em fotos. Foi então que eu a vi…

Abriu-se na minha frente uma enorme área cercada por construções antigas e impondo-se magestosa, lá estava ela, a Catedral de Santiago de Compostela. Fui andando mais devagar como se precisasse de uns minutos a mais para processar. Havia muita gente. Grupos, casais, bicigrinos e turistas. Era fácil identificar quem estava chegando, a emoção estava nos sorrisos, nas lágrimas, nos abraços trocados e nos tantos registros fotográficos que todos queriam fazer.

Sentei no chão cansada e chorando. Larguei a mochila e deixei as lágrimas correrem. Eu não sabia bem porque estava chorando mas senti uma emoção tão grande ao constatar que eu estava mesmo lá, que eu tinha conseguido. Eu sempre soube que faria mas lembrar de toda dor que me acompanhou me fez sentir alívio e sensação de missão cumprida. Fiquei um tempo assim observando a movimentação e me deixando envolver, depois fui fazer fotos para registrar minha conquista.

Estou escrevendo muito tarde hoje porque as comemorações e despedidas emocionadas do meu grupo de amigos foram longe. Alguns eu nunca mais verei, outros ficarão pra sempre na minha vida de uma forma ou de outra.

Eu fiz o Caminho Francês de Santiago, a maior aventura da minha vida até aqui.

Diário do Caminho 18/06

18/06/2018 – Falta pouco e sobra muito.

Hoje eu fiz 19,2km entre Arzúa e O Pedrouzo. Caminhada tranquila e sentimentos bons. Muita coisa passou pela minha cabeça, afinal estou às vésperas de concluir o maior desafio da minha vida até aqui. Dois pensamentos se sobressaíram aos demais: a vontade que eu tenho de agradecer e minhas expectativas frente à realidade do Caminho.

Enquanto me preparava para o desafio físico, meus maiores “medos” tinham a ver com questões psicológicas. Eu pensava que meu maior desafio aqui seria me adaptar ao novo, à rotina, à comida… Mas não. Não foi isso o que aconteceu. Talvez eu estivesse subestimando minha capacidade de adaptação porque desde o primeiro dia tudo foi muito simples e fácil nesse sentido. Não fiz drama com nada em especial. Algumas situações nunca vividas foram logo somadas ao todo e mesmo que, se por alguns instantes eu não gostasse, era realmente passageiro e se transformava em uma nova lição.

Quanto à parte física, essa sim me trouxe desafios e dores desconhecidas com as quais tive que lidar de uma forma ou outra. Senti muita dor, muito cansaço mas a cada manhã, com exceção dos dias em que fui obrigada a parar, eu acordava pronta para tentar. Tentar… porque às vezes eu não sabia se iria conseguir caminhar todo o programado para aquele dia. Mas eu consegui e isso prova para mim mesma que eu sou forte, que eu posso e que na verdade eu gosto dos grandes desafios físicos.

Sobra vontade de agradecer… de forma direta eu quero dizer um enorme “muito obrigada” a cada um que torceu por mim, a cada frase de incentivo e boas energias enviadas. Valeu gente!! 😍
Além deste, vai meu agradecimento de coração às minhas queridas Mederix que foram companheiras de caminhadas e diversão. Igor Santa Rosa querido que tanto me ajudou e andou comigo pelas estradinhas da região. Anderson Haas meu professor de pilates e amigo: obrigada por todo o trabalho específico que fizemos, você é 10! Obrigada a cada amigo que me ajudou de alguma forma.

E o agradecimento mais especial de todos vai para minha mãe Vanilda Medeiros. Obrigada por me apoiar em tudo o que eu faço. Obrigada por me aguentar falando e planejando por um ano o Caminho de Santiago! Nem eu aguentava mais me ouvir. 😂
Te amo. Você esteve comigo em cada coisa bonita que eu vi.

Agora é dormir e pular da cama cedo pra viver com intensidade o dia de amanhã.
Obrigada. Obrigada. Obrigada!

Diário do Caminho 17/06

17/06/2018 – Sobre personagens e o jogo do Brasil

Ontem tentei dormir o mais cedo possível. Acordei com meus dois pés pulsando de dor. Precisei tomar remédio e enquanto a dor não passava eu fiquei imaginando o caos que seria o dia de hoje quando eu andaria 28,8km.
Mas como sempre aconteceu até aqui, acordei bem. Sempre um pouco dolorida, mas bem. Saí do albergue às 6:30h e caminhei em um bom ritmo por quase todo o percurso. É verdade que hoje fiz uso do analgésico na metade do caminho mas ainda assim correu tudo bem. Cheguei em Arzúa por volta das 12:40h.

Enquanto caminhava, eu hoje fui tentando lembrar de pessoas que conheci pelos quase 800km já percorridos. Lembrar de pessoas é tão difícil quanto lembrar dos albergues em que dormi ou o nome dos povoados por onde passei. É preciso puxar lá do fundo da memória algum detalhe.

Lembrei da americana que conheci no primeiro dia. Este é seu quinto caminho e ela estava caminhando desde Paris. Nunca esqueci da Mônica, a brasileira de SP que conheci em Pamplona e que me deu a vieira que eu ainda não tinha. Um dia cruzei com um senhor mais velho que estava vindo de Dublin. Até àquela altura ele já havia percorrido 1.600km. Conheci o Francis, um senhor francês que estava fazendo o Caminho ao contrário desta vez.
A história que mais me tocou foi a do Americano do Texas, um jovem senhor, que fazia o Caminho para honrar a promessa que fez a esposa. Os dois planejavam fazer juntos mas um câncer no cérebro à levou antes.

Foram tantas pessoas de tantos países… Por quase todo o Caminho eu gostava de perguntar de onde aquela pessoa vinha. Gostava de registrar na mente o alcance que tem o Caminho de Santiago.

Hoje o jogo do Brasil passou às 8:00 aqui. Fomos a um bar e lá assistimos o primeiro tempo. Vou falar: que falta fez a transmissão brasileira com as vozes conhecidas e as narrativas emocionadas.
O segundo tempo eu assisti no albergue e havia um grupo de rapazes coreanos assistindo também. Eles adoram futebol e estavam torcendo para o Brasil. Foi muito engraçado assistir com eles porque a cada lance todos murmuravam juntos sons que faziam todos os presentes darem risada.

O placar do jogo foi empate mas o resultado da minha caminhada de hoje com certeza foi vitória! 😊

Diário do Caminho 16/06

16/06/2018 – Sensação de paz sabor banana.

 

Pulei da cama cedo, assim que vibrou o celular embaixo do travesseiro às 5:15h. Hoje meu plano era escapar daquela multidão que costuma sair meio junto. Não tenho absolutamente nada contra os grupos ou os turigrinos (turistas que vem fazer o final do Caminho), só prefiro o silêncio e o foco de uma saída cheia de energia.

Falando em grupos, me chamam a atenção as turmas de escola. Em Estella vi o primeiro. Eram adolescentes franceses na faixa dos 16 anos que estavam lá para fazer alguns quilômetros, não recordo o quanto. E agora em Sarria puxei assunto com alguns meninos de uma grande turma para saber o que fariam. A idade parecia não ultrapassar os 14 anos e me disseram que irão até Santiago, ou seja, coisa de 100km.

No Brasil as turmas fazem excursão, aqui muitas fazem trechos do Caminho. Eu achei muito interessante que adolescentes encarem esse tipo de coisa, porque convenhamos, ficar na internet dá bem menos trabalho. Foi observando um grupinho passar que pensei: talvez essa seja a semente que faz com que tantas pessoas que moram na Europa façam o Caminho por diversão, as vezes dividido-o em várias etapas ao longo de anos.

Tomei meu café calmamente esperando o dia clarear um pouco mais para sair. Eram 6:20h quando comecei. Apesar de estar sem a mochila grande continuo sentindo as velhas dores. A diferença é que agora demora um tempo a mais para começar e consigo administrar melhor até chegar. Amanhã será meu último grande desafio aqui: 28,8km. Vou encarar. 😊

O ponto alto para mim hoje foi quando, na metade do caminho, já cansada, encontrei um muro de pedras perfeito para uma pausa. Sentei sob o sol, estiquei as pernas e me pus a saborear um pequeno sanduíche e uma porção deliciosa de banana desidratada (tipo um chips). Sem conversas, sem hora… e com uma paz simples e feliz que só uma situação dessas é capaz de proporcionar. 😍

Diário do Caminho 15/06

15/06/2018 – Sorria, você está sendo filmado? Não. Disfarça que alguém tá olhando!

Hoje caminhei por 22,4km de Sarria à Portomarín. Voltei à rotina de sair antes das 7h da manhã. Por vários dias eu estive saindo dos albergues por volta das 8h, o que considero bastante tarde mas eu precisava dormir mais e ter mais tempo para me recuperar das últimas dores. Agora, com a multidão que se aglomera na saída incluindo grupos escolares, eu pretendo voltar a sair bem cedo.
Hoje foi um dia tranquilo andando por bosques muito agradáveis e passando por várias propriedades rurais.

Estava eu deitada fazendo praticamente uma sessão de congelamento em mim mesma e pensando no que escreveria hoje quando um homem bocejou no quarto já com poucos barulhos. Isso me fez lembrar do Big Brother Brasil.

Aqui no Caminho acontece uma coisa interessante… a gente esquece que está “sendo filmado”. 😁
A questão é que muitos comportamentos que antes pareciam estranhos de ver ou fazer, com o passar dos dias tornam-se comuns e com muita coisa a gente deixa de se importar.

Compartilhar um quarto com mais 35 pessoas. Usar a ducha dentro de um banheiro cheio de outras mulheres ou compartilhar o mesmo banheiro com homens. Ver gente andando de cueca pelo quarto ou senhoras trocando de roupa sem cerimônia. Ouvir roncos de estranhos, presenciar gente que fala enquanto dorme. Sair do quarto no meio da noite para ir ao banheiro e quando voltar dar-se conta do “calor humano” que impregnou o ar.

Lá um belo dia tudo fica menos incômodo. A gente deixa de se importar, esquece que está rodeado de pessoas e quando vê está fazendo algo que não faria perto de estranhos.

Sobre o bocejo? Ah sim… me lembrou o Big Brother Brasil porque alguns sentem-se mais em casa que outros como o senhor que abriu a boca e sem cerimônia fez um bocejo do tipo: “_ Uhaaa… haa…haa…haaaaaa!!” para quem quizesse ouvir.
Coisas da vida peregrina. 😂😂😂